O impacto climático do turismo: o que os dados mostram e o que o setor pode fazer

30 de julho de 2026

O turismo depende de paisagens conservadas, estações previsíveis e ecossistemas em equilíbrio, mas essas condições já não podem ser dadas como certas. Em boa parte do planeta, a crise climática já alterou o regime de chuvas, intensificou secas e queimadas e ameaça exatamente o cenário do qual o setor depende para operar. O turismo é, ao mesmo tempo, atingido por essa crise e parte do problema que a alimenta: contribui de forma significativa para as emissões que a aceleram. Colocar essa contradição em debate, sem alarmismo e sem defensividade, é o primeiro passo para que o setor assuma sua parte na resposta.

O tamanho do problema

Em 2024, pela primeira vez, o turismo entrou formalmente na pauta da Conferência do Clima da ONU, a COP29. Na ocasião, a UN Tourism, nome atual da Organização Mundial do Turismo, endossou publicamente o estudo mais abrangente já produzido sobre a pegada de carbono do setor, publicado na revista científica Nature Communications: o turismo respondia por cerca de 8,8% das emissões globais de gases de efeito estufa em 2019, quase o dobro do patamar estimado quinze anos antes. É o dado mais robusto disponível até hoje. Estudos desse porte cruzam bases de comércio e viagem de mais de 160 países, o que naturalmente gera alguns anos de defasagem entre a coleta e a publicação, mas não reduz seu valor como referência de tendência, sobretudo por ter sido formalmente reconhecido pela ONU do Turismo na conferência mais recente do clima.

Dentro dessa pegada, a aviação responde pela maior fatia isolada (cerca de 21%), seguida por veículos a combustão (17%) e por utilidades como eletricidade e saneamento nos meios de hospedagem (16%). As emissões do turismo cresceram, em média, 3,5% ao ano na década estudada, mais que o dobro do ritmo de crescimento do restante da economia global, e apenas vinte países concentram três quartos de toda a pegada de carbono do setor.

A Organização Mundial do Turismo e o Fórum Internacional de Transportes (ITF) chegam a uma leitura complementar ao olhar apenas para o transporte ligado ao turismo: essas emissões cresceram pelo menos 60% entre 2005 e 2016 e, sem aceleração da descarbonização, podem crescer mais 25% até 2030 frente aos níveis de 2016.

Mitigação e adaptação não são a mesma coisa

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) separa dois conceitos que o setor de turismo precisa dominar. Mitigação é a ação para reduzir emissões ou aumentar a capacidade de captura de carbono, trocar matriz energética, otimizar rotas, reduzir desperdício. Adaptação é o ajuste de destinos e operações às condições climáticas já em curso ou previstas: proteger encostas, gerir recursos hídricos compartilhados com comunidades locais, revisar calendários de temporada.

Os dois eixos são complementares e urgentes. Eventos como as cheias no Rio Grande do Sul, em 2024, mostram como um único evento climático extremo pode interromper simultaneamente o acesso de moradores a serviços básicos e a operação turística de um destino inteiro, evidência de que resiliência climática e resiliência do território turístico caminham juntas.

Porto Alegre (RS), 17/05/2024 – CHUVAS RS- ENCHENTES – Centro histórico de Porto Alegre permanece alagado devido as fortes chuvas dos últimos dias. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Isso já é realidade na rede do MUDA! Coletivo Brasileiro de Turismo Responsável 

Esses não são cenários hipotéticos. Dois associados do MUDA! já enfrentaram, na prática, o que significa operar turismo em meio a eventos climáticos extremos, um pelas queimadas, outro pela seca.

Pantanal, agosto de 2024: quando o fogo chega antes do esperado

Douglas Simões, da Pure Brasil, operadora de turismo associada ao MUDA!, viveu essa realidade no início de agosto de 2024, quando um incêndio que havia começado a mais de 200 quilômetros de distância chegou ao Refúgio Ecológico Caiman, no Pantanal, e obrigou a retirada dos hóspedes horas antes de o fogo atingir o local onde estavam alojados.

“Em agosto de 2024, um incêndio que começou a mais de 200 quilômetros de distância chegou ao Refúgio Ecológico Caiman e retiramos nossos passageiros por volta das 8h30, pouco antes de o fogo atingir o local onde eles estavam hospedados. Nos meses seguintes, precisamos levar grupos inteiros para fora do Pantanal, porque não havia vaga em nenhum outro lodge da região, e o custo da operação aumentou muito. Hoje trabalhamos para influenciar atores locais e o poder público a criar mecanismos de contenção do fogo, inclusive com doação de equipamentos de combate a incêndio para pousadas da região.”, afirma Douglas Simões, sócio da Pure Brasil.

Rio Negro, entre 2023 e 2024: quando o rio decide se a operação existe

No Amazonas, a seca histórica do Rio Negro, entre 2023 e 2024, interrompeu por completo o acesso ao Manati Lodge, hospedagem associada ao MUDA! às margens do rio.

“Nos anos de 2023 e 2024, a seca nos obrigou a fechar completamente o Manati Lodge por mais de dois meses. Por volta do dia 19 de setembro, já não havia nenhum acesso possível ao hotel, e somente próximo ao dia 5 de dezembro conseguimos retomar a operação. Essa experiência nos ensinou que, no turismo de natureza, é preciso respeitar os limites do território, planejar com antecedência e colocar a segurança das pessoas e do ambiente acima de qualquer interesse comercial.”, conta Marília Costa, CEO do Manati Lodge.

Manaus (AM), 21/11/2023, Lago do Aleixo com barcos e flutuantes encalhados, na maior seca em 121 anos que Manaus vem sofrendo. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

O que já existe como referência para o setor

O setor de turismo tem hoje um instrumento setorial de referência: a Declaração de Glasgow sobre Ação Climática no Turismo, lançada na COP26 e hoje com mais de 1.000 organizações signatárias em todo o mundo. Os signatários se comprometem a medir e divulgar suas emissões, apresentar um plano de ação climática em até 12 meses e alinhar esse plano a cinco eixos: medir, descarbonizar, regenerar, colaborar e financiar.

A Embratur é signatária da Declaração de Glasgow desde setembro de 2023, o que aproximou a agenda climática internacional da política nacional de turismo. Em novembro de 2025, esse movimento ganhou um capítulo simbólico importante com a realização da própria COP30 em Belém, no coração da Amazônia. Para o MUDA!, esse legado é uma janela concreta de diálogo institucional: cobrar, apoiar e monitorar a implementação desses compromissos no território brasileiro faz parte do papel de um coletivo que atua junto ao Conselho Nacional do Turismo.

O que muda na prática

Reduzir o impacto climático do turismo não depende de uma única solução. As referências científicas e institucionais, somadas à experiência de Douglas e Marília, convergem para três frentes de atuação:

  • Transporte: priorizar modais de menor emissão quando houver alternativa viável, otimizar logística de grupos e compensar o que ainda não pode ser evitado, com metodologia transparente.
  • Hospedagem e operação: eficiência energética, gestão hídrica e de resíduos, e uso de fontes renováveis onde a infraestrutura local permitir.
  • Planejamento preventivo: monitorar riscos climáticos com antecedência e ter coragem de suspender ou reorganizar a operação quando a segurança de pessoas e território exigir, mesmo com custo comercial.

A posição do MUDA!

Para o MUDA!, os impactos da crise climática deixam de ser uma projeção quando passam a fazer parte da rotina de quem opera destinos turísticos. Os relatos de Douglas Simões e Marília Costa mostram que os desafios discutidos pela ciência já afetam decisões operacionais, segurança, infraestrutura e a continuidade das atividades em diferentes regiões do país.

“O turismo não pode ser espectador da crise climática, ele já é parte do cenário atingido e também parte da solução possível. O papel do MUDA! é dar voz técnica e coletiva a quem já está enfrentando esses impactos no território, e cobrar que o setor, as políticas públicas e os grandes players estejam à altura do que a ciência já demonstra ser urgente.”, Tatiana Paixão, presidente do MUDA!.

O MUDA! entende que a resposta do turismo brasileiro à crise climática não pode ser terceirizada para grandes operadores globais nem tratada como discurso de sustentabilidade sem lastro técnico. Contribuir para medir, comunicar e cobrar avanço nesse compromisso é parte do papel do coletivo como voz de autoridade no setor.

Fontes

Sun, Y-Y. et al. Drivers of global tourism carbon emissions. Nature Communications, 2024.

UN Tourism. Endosso ao estudo de pegada de carbono do turismo por ocasião da COP29, 2024.

UNEP; UN Tourism. Global Tourism Plastics Initiative e One Planet Sustainable Tourism Programme.

OMT (UN Tourism) e ITF. Transport-related CO2 Emissions of the Tourism Sector, 2019.

IPCC. Sexto Relatório de Avaliação (AR6), 2021 a 2023, definições de mitigação e adaptação.

Gil, J.; Marques, N. R.; Andrade, G. N. Agenda climática e o turismo no Brasil: contribuições para políticas públicas de adaptação frente às mudanças climáticas. Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo, São Paulo, v. 17, e-2759, 2023.

UN Tourism / One Planet Network. Glasgow Declaration on Climate Action in Tourism, texto e lista de signatários, 2021 a 2026.

Entrevistas concedidas ao MUDA! por Douglas Simões (Pure Brasil) e Marília Costa (Manati Lodge), 2026.

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